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31 de maio de 2012

Sobre o tempo das coisas

Lembro que quando criança, ainda nos primórdios dessa maravilha relacional-tecnológica que é a internet, numa época em que dia de computador era apenas finais de semana ou após a meia noite, ficava horas e horas esperando downloads de músicas. Filmes então, só depois de um mês se estivesse com sorte.

Eis que recentemente aumentei a velocidade de internet e entrei para a média nacional de 2Mbps. Há algumas semanas atrás, enquanto baixava alguma coisa, sempre dava tempo de um café, ler algum recado de sms e rabiscar alguma coisa, mas desde que aumentei minha conexão as coisas têm sido diferentes.
Numa manhã qualquer destas, ao começar um download percebi que o tempo estimado seria de DEZ minutos. Meio que num desespero para acomodar meu desempenho ao desempenho de minha nova internet, tentei diminuir ao máximo o tempo que eu dedicava a cada uma dessas atividades de alguns dias atrás. Nem consegui tomar o café.

 Resultado desta desventura matinal ou não, tenho passado um (considerável) tempo longe daqui. A rapidez com que as coisas vêm acontecendo têm me causando cada dia mais tédio frente a elas. Tédio pela quantidade  que me impede de digeri-las . Tenho me sentido um ganso de foie-gras da era da informação e acho que não sou o único.

Preciso de espaço. Preciso de tempo, e de um hamburguer

4 de abril de 2011

That's the thing with magic. You've got to know it's still here, all around us, or it just stays invisible for you


O clipe novo da Katy Perry é o motivo desse post. Diferentemente do que eu pensava o clipe é uma ótima produção, e apesar do finalzinho merchan-nonsense acho que Katy Perry acertou, mas não tanto quanto em 'You're so gay' minha música favorita, com um clipe e produção bem menos intergalático e ainda assim super legal.
Mas, saindo dos meus rodeios, vamos ao que interessa. Vídeo rodando, pencas de efeitos, sintetizadores reinando, Katy com uma dollface from mars e assim, do nada, me senti meio robô.

Dispenso discursos clichês pós-modernistas__ou serão hipermodernos, Lipovetsky?___ que colocam o avanço tecnológico proporcional à perda dessa 'humanidade' e que, a longo prazo, nos transformará em máquinas sem coração.

Eis o que eu acho: com tanto avanço científico, teorias pra cá e teorias pra lá, analisando e explicando sub-atômicamente cada nanômetro de nossa existência, viver fica um pouco menos fantástico. 

É disso que eu sinto falta: desse mágico que pede rituais de fogueira, onde a pele marcada pela experiência expõe suas feridas e atesta sua perenidade numa dança em êxtase. Sinto falta desse místico que coloca um véu sobre as coisas e que, por mais que tentemos, não conseguimos tirar.

 
Carlos Miele F/W 2011
Reserva F/W 2011

    
Comme des Garçon F/W 2011

Roskanda Ilinic F/W 2011
 
Comme des garçons F/W 2011
Gareth Pugh F/W 2011
Manish Arora F/W 2011

Talvez saber os elementos e reações químicas responsáveis pela chuva seja (bem) menos interessante do que só observá-la cair.

PS.: O título é uma citação do escritor/músico Charles de Lint.

26 de agosto de 2010

A linha tênue entre o artifício e o brega/kitsch




Com Britney na capa da edição Fall/Winter japonesa da POP Magazine, Takeshi Murakami(do qual eu já falei nesse post aqui) faz o styling da cantora bem como a edição das fotos.
Quem já usou o puricute deve ter tido um déjà vu com a capa. Esse site permite editar suas fotos adicionando à elas várias molduras/adesivos/efeitos para deixar a foto mais "fofa". Assim como o site, Murakami usa de tais referências às cabines de fotos japonesas, o que não é surpresa visto que ele é um representante da pop art do país.

O interessante de se notar (tanto na revista, quanto no site) é a aura de coisa over, quase kitsch, que envolve ambos os casos: É tudo muito brilhante, colorido, chamativo, os espaços são todos ocupados e não há possibilidade de "descanso" do olhar. Um bombardeio de fofura, eu diria.

E como mencionar o kitsch sem lembrar do nosso brega, aquela música melosa sobre de dor de cotovelo ou traição que toca em 10 a cada 10 postos de gasolina do interior ou bar decadente; ou aquele bibelô da loja de R$1,00; ou então aquela camisa comprada na banca de promoções.

E o que há de interessante nesse brega/cafona/kitsch você deve estar se perguntando? Na minha opinião, o maior trunfo de qualquer coisa taxada com algum desses nomes é o fato de tais não serem tão sóbrias/sérias, é como se, uma vez taxadas de duvidosas, elas se deligassem de qualquer responsabilidade quanto à sofisticação, elegância ou moderação.
Um exemplo disso são as obras de Jeff Koons:
 

E mais recentemente o clipe todo fofo-glitter-ouro-unicó
rnios da MIA:





E o que são o kitsch e o brega senão o artifício em doses cavalares? O batom é um bom exemplo, se usado de maneira comedida, correta, ele vai aparentar o mais natural possível; diferentemente de quando usado sem tanta destreza e discrição, que é quase como colocar uma placa de "OVER" no pescoço da indivídua.

Leigh Bowery e modelo no desfile F/W de Alexander McQueen
Se a estética do kitsch é tendencia, ou se a formalidade e a elegância estão com os dias contados eu não tenho idéia. Mas uma coisa é certa: o kitsch é bem mais divertido.

28 de junho de 2010

Sobre uma música e toda a insegurança do mundo

Não conheci, até o presente momento, alguém que estivesse plenamente satisfeito com o corpo que possui. Desde pequenas alterações, até drásticas cirurgias, parece que todos sentem essa necessidade de mudar alguma coisa no seu corpo. E, claro, seria hipocrisia minha dizer que não sinto o mesmo.

Junto com essa vontade de alterar o corpo, também vêm a vontade de mudar de roupas, de comportamento, de vida, de amigos, costumes, etc. E mesmo não sendo regra geral, a insegurança quanto à nossa imagem parece ser a causadora de tudo isso, de toda essa necessidade de verificar, a todo momento, se estamos "corretos".

E justamete nesse contexto de não estar confortável, seguro, com quem se é (!?), que encontro a música de Polly Scattergood "I Hate The Way"( a versão sem o radio edit)

Com uma voz doce, que beira o sussurro, a letra enumera os "defeitos" que uma garota alega ter, e as várias tentativas dela, de agradar a pessoa amada:

"Maybe if I skip my dinner,
Make myself pretty and thinner,
Maybe then he'll love me and stop looking at the other girls."

Porém, o que ocorre é que, justamente por tais mudanças infidáveis, e um não comprometimento com o que ela realmente é, o garoto critica-a:

"He said "Girl, you've got a million different faces.
So why'd you put on that disguise?"

Isso nos faz questionar: até que ponto seria necessário uma sociedade, onde a imagem pessoal sempre tem photoshop? Onde uma insegurança coletiva, faz multidões gastarem,e muito, em meios para corrigir os próprios "defeitos"? Meios esses que, mesmo prometendo a felicidade, nem sempre a trazem.

Principalmente no âmbito da moda, muita gente procura a qualquer custo se adaptar a alguma  padrão, sem lembrar que ele, por mais que pareça ser eterno, é passageiro. Hoje é, principalmente, a questão do peso, -vide as críticas feitas às modelos "gordas" que desfilara para a Cia Marítima no SPFW- na Idade Média eram as testas grandes, e no Renascimento foram as perucas.

Retrato de Margaretha, de Van Eyck

Por estarmos em uma sociedade onde as mudanças se fazem cada vez mais rápidas, é difícil assumir uma postura considerada correta hoje, sendo que amanhã ela pode se mostrar completamente equivocada.
Não quero dizer que mudanças não sejam boas, elas são sim. Mas tentar mudar, para seguir uma beleza vigente, ou para agradar um determinado grupo é, quando não um ciclo vicioso, ineficiente. Os gostos sempre vão mudar, e você não precisa(nem deve) necessariamente acompanhá-los.

PS.: Recomendo MUITO a leitura desse post do blog Meninos Podem

Fotos via [Lauren Peraltakillermusic, Academic Dictionaries & Encyclopedias]

30 de abril de 2010

VMA 2003 rendeu né?


Eis que hoje, ao ler os posts no google reader me deparo com o clipe novo da Aguilera, que aliás tem sido meio escanteada, uma vez que não grava um álbum há milênios e não têm dado alguma prova de criatividade que nos faça, por exemplo, esperar até altas horas para uma premiere de um clipe seu(como aconteceu com Telephone da Lady Gaga).
Sabendo que todo mundo iria comentar mesmo, e que de 10 posts que eu lesse no mínimo uns 4 falariam desse tal clipe, apertei o play e fui buscar o café, pensando que esse por suas qualidades estimulantes, me fariam não pausar o clipe no meio e correr pro iTunes ouvir o cd novo da Kate Nash.
Como de esperado, o café não adiantou. E no primeiro grito da moça(aos precisos 12 segundos) não me contive e fiz meu ritual de purificação mencionado acima. Já sabendo que a música não seria lá aquelas coisas, coloquei mudo e fui ver o que a gennie in a bottle havia feito.
Pra falar verdade, o clipe todo é uma porcaria. Mesmo o figurino usado. Não passam de refêrencias de outras cantoras, e algumas copiadas na cara dura. De todo o figurino só salvaria o colar que ela usa no início do clipe, uma coisa bem egípica.Fora o figurino, tem sempre aquela coisa britney/madonna e afins. Mas essas duas, pelo menos, têm músicas boas pra "buátchi".
Mas o que esse clipe me deixou pensando(consegui pensar vendo um clipe da Xtina? Aleluia!) foi que essa estética de crazy-bissex-bitch vem tomando conta da indústria pop ultimamente.Vários anos após o tribeijo MadonnaxBritneyxAguilera esse apelo ao bissexualismo não para de crescer a cada dia.
E você leitor liberal(ou não) deve estar pensando: "Mas isso é uma coisa boa, pessoas assumindo publicamente sua sexualidade ajudará a sociedade a aceitar isso". E se eu te dissesse que é puro marketing?
"Chega mais amiga"

Já faz tempo que a industrias da moda/cinema/música/TV investem nessa imagem feminina que, além de feitichista, deve ser lucrativa, visto seu grande crescimento. Tudo parece se resumir em mostrar uma imagem "moderna", já que hoje em dia a sexualidade é discutida mais abertamente(mas não tanto) do que há alguns anos. E uma vez que a sexualização do corpo feminino e o apelo (hetero)sexual parecem já ter alcançado seu limite, a bissexualidade feminina vem como uma nova galinha dos ovos de ouro(ou de dolares, como preferirem).

É bom lembrar que isso só ocorre no caso das mulheres, consideradas vulneráveis, maleáveis e influenciáveis desde há muito só elas podem ter esses "desvios" de conduta. Desvios esses que são impensáveis para um homem, já que esse deve ser íntegro, de bem, e de preferência, heterossexual.Definitivamente essa imagem de Mulher corrompida x Homem integro é uma discussão que deve ir bem além do que um simples post.

PS.: O clipe da fulana pode ser visto aqui. Mas eu já vou avisando: é see it at your own risk

22 de abril de 2010

Seu presente te condena


Um professor meu disse certa vez que o tempo, como um todo, é uma grande linha, e que mesmo que tenha acontecido muita coisa antes de nascermos, sempre consideramos como melhor ou superior tudo aquilo que é contemporâneo a nossa vivência.

A gente percebe isso a todo o momento, seja com nossos avós dizendo o quanto as coisas eram melhores no tempo deles, ou com os pais reclamando da educação que não é mais a mesma, ou com gente tendo como ídolos absolutos pessoas que fizeram nada mais do que se espelhar em alguem lá do passado. Aquele passado que veio de muito, empoeirado, cheio de conflitos, detalhes e conceitos que você, muito ocupado com o tempo que mais te apraz,o seu, não se dá ao luxo de tentar compreendeer por que algumas coisas eram de certa maneira.
Quer exemplo mais simples disso do que olhar álbum de família? Sei que nessa época toda modernosa, muita gente nem deve saber que há um tempo atrás isso era um "hit"(rs, palavra engraçada essa).Toda familia que se prezasse tinha que ter um álbum, onde se registravam os momentos mais importantes, de nascimentos à formaturas estava tudo lá. Mas qual não é a surpresa que nós, como criaturas de uma época de 140 caracteres, temos ao nos deparar com os modelitos extravagantes ostentados pelos constituintes desse álbum. Tamanhos exagerados, cores estranhas, óculos que por pouco não cobrem o rosto inteiro, e cabelos volumosos até onde os olhos podem alcançar. 
A nossa reação imediata é de estranhamento (Calça boca-de-sino? É algo sinestésico isso?), e por vezes transformamos a pessoa registrada em motivo de piada, por se vestir de uma maneira tão estranha e, principalmente, desatualizada.
Mas todo mundo esquece nessa hora é de que a nossa "atualidade" também não vai durar para sempre. Ke$ha, Gaga, Bieber e afins vão ser, daqui a 20 anos, apenas lembranças (isso se ainda tiverem sorte). Twitter vai ser para nossos filhos o que as cartas (lembra delas?) são pra nós. Logo, você moça bonita de cabelo milimetricamente liso com sua Chanel 2.55 e seus louboutins, ou você rapaz elegante com suas jaquetas cheias de tachas, calça skinny, e cabelo modernex  por mais que se esforçem nunca escaparão dessa armadilha que o sistema de moda(é, aquele que você adora) e o tempo armam para você.
Por mais que você tenha todo o dinheiro do mundo, milhares de roupas no seu closet, sapatos a perder de vista, pencas de acessórios guardados em baús (Louis Vuitton, por favor) e gosto musical atualizadíssimo, você vai ser vítima do momento. O mesmo momento que você consagra como o único tempo existente. Momento que proporciona à você tudo de mais moderno, atual, cool e hype mas que tem, infelizmente,  esse pequeno inconveniente de acabar.
[foto via Trash 80's]